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Diacho da rapariga! Querem ver que era ela !?
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… Diacho da rapariga! Querem ver que era ela !?
(continuação da Edição anterior)
Os pastores começaram a matutar o caso... Uns tantos riam-se dos pastores, chamando-lhes lorpas e outros levam o medo a sério, dirigindo-se, também estes aos buracos, armados de paus de marmeleiro...
Mas tantas vezes aconteceu faltar o peguilho aos pastores que pelo sim e pelo não, eles resolveram por-se à espreita, por detrás de uns silvados.
E é, então, que, dum buraco, vêem sair um vulto que os deixou boquiabertos e quase sem respiração. Parecia ser a moça, desaparecida há anos, desgrenhada e envelhecida. Era ela que se apossava dos seus farnéis (!?)
Não queriam acreditar no que estavam a ver. Esfregavam os olhos, não estivessem a sonhar e iam pensando la para consigo:
- É obra de Satanás, à certa.
Convencidos de que era coisa maligna, correram a dar a noticia ao paroco da freguesia. Inicialmente, o velho reitor não os quis acreditar. Porém como eles insistam, acabou por acompanhar-los, a alta madrugada, ao Buraco Feio, iluminados pela Estrela Polar.
Emboscaram-se e guardaram absoluto silencio. E eis a pobre mulher com as vestes em desalinho e a face escaveirada, caminhando a passos lentos e, aparentemente, alheia de tudo.
Chegou a vez de, também, o prior ficar atónito. Reconheceu a desgraçada e, sem delongas, vai-lhe ao encontro, cheio de santo zelo.
A mulher treme e tenta evadir-se. O sacerdote traça, rapidamente o sinal da cruz e ela aquieta-se e responde ao chamamento. De pronto, deixa o Buraco e acompanha-os de regresso à aldeia.
E logo conta a sua história de estarrecer. Como, um dia, quando o pai a castigava, dissera do seu coração que casaria nem que fosse com o diabo e que este esperou a ocasião favorável e a arrebatou para as profundezas do abismo... Que tivera três filhos que só os vira ao nascer, porque logo lhes foram arrebatados. Como eles eram não quis dizer... Mas que, mesmo assim os amava.
Já à vista do povoado pergunta pelos seus pais, desejosa de saber se são vivos... Se lhe irão dar a benção, o seu perdão...
Aquietada nos seus escrúpulos pelos bom prior, entra na aldeia, olhada pelos transeuntes como se fora uma morta ressuscitada. Uns benzem-se, outros correm a sete pés, fechando-se em suas casas...
A história correu toda a povoação e circulou pelos arredores. E dos tais fraguedos diabólocos que se abrem em fendas e buracos, se afastavam contrabandistas, pastores e quem por ali perto passa-se. O demónio tentador morava ali...
MENSAGENS A RETIRAR DESTE CONTO:
1. Condenação da autoridade paterna despótica e do desinteresse pelos afectos legítimos e honestos dos filhos.
2. Chamamento a contenção verbal sobre tudo quando não deveriadizer-se nem fazer-se, sobe pena de algum castigo.
Pelas ruas esguias e cheias de portas e janelas, João corria em direcção à casa de seu avô. Estava com toda a pressa porque queria mostrar uma descoberta. Saltou degraus, passou pela fonte, foi observado pelos pombos e nem reparou na Dona Esmeralda que o cumprimentou.
"Raio do rapaz que vai desvairado!" reclamou a velhota sentada junto à sua porta.
Mas João só queria chegar junto do avô. Ele saberia o que aquele achado significava.
O seu querido avô tinha sido mergulhador na Marinha e tinha visto muitas maravilhas debaixo do mar: peixes, corais, tubarões e até tesouros!
Contava-lhe histórias fenomenais que o levavam a sonhar com grandes aventuras. Quando fosse grande queria ser como ele. Ai se queria!
Quase sem fôlego, chegou ao nº 22 e carregou no botão.
Abriu-se uma janela e uma cabeça branca surgiu, espreitando.
"Ah és tu! Sobe, sobe."
João subiu 2 degraus de cada vez e quando chegou junto da porta disse: "Eu tenho aqui um tesouro, avô!"
"Um tesouro? Quero ver isso, entra."
João abriu as mãos e mostrou o seu tesouro com orgulho.
O avô sorriu. Uma linda concha alta e redonda com desenhos rosados e castanhos fazia as delícias do seu neto. Não era uma concha vulgar, era realmente bela e rara.
"Onde encontraste?"
"Na praia. Andava a brincar com o Pedro e vi-a junto a uma rocha. Nunca vi nada mais lindo. É preciosa!!!".
"É mesmo um tesouro, digo-te eu. Guarda-a!"
O avô sorriu. Mais tarde, juntos, conversaram junto ao miradouro olhando para o mar.
Diacho da rapariga! Querem ver que ela anda metida com o diabo!?
Não andava mas veio a andar! Dai a tempos, já meio esquecido o escureceu, ajudava a rapariga sua mãe, na lida de acomodar os recos (com vossa licença) quando se deu o seguinte incidente tenebroso.
Os moradores mal deram fé do movimento desusado da aldrava das portas, correram desnorteados para fora das suas casas. Viram, então, a pobre mulher ali especada no meio da rua, de balde na mão, chamando solicita: re...co..., re...co..., re...qui...nho..., re...co..., re...co..., e a filha a correr desatinada na ânsia de apanhar os porcos e estes a distanciarem-se cada vez mais, à sua frente la para o meio dos montes.
Veio a noite e o corpo varou-se-lhe de medo. Queria recuar mas não sabia por onde faze-lo. A escuridão naquele sitio fá-la, ainda, temer cair nalgum buraco, precipício ou sair da la um qualquer bicho e mata-la.
A certa altura da noite um fumo muito negro começou a envolve-la, a tolher-lhe os movimentos e os braços e a aperta-la cada vez mais, enquanto uma voz estranha lhe martelava os ouvidos:
"Sou teu noivo...! Escolheste-me...! Chegou a hora!" Desesperada a rapariga tentou resistir, gritar, benzer-se... Mas já não era senhora dos seus actos. Envolta na fumaçada. negra foi arrastada por entre aquelas fendas la dos buracos dos rochedos...
Na aldeia não houve vizinho que dormisse naquela noite. Saíram todos os homens para o monte, bateram todos os cantos em busca da desaparecida mas nada de a encontrarem...
Redobraram os gemidos da mãe... A casa encheu-se de gente, como se de um mortório se tratasse.
Dizia-se: "Homes esta! Uma coisas assim nunca antes se viu!" E às escondidas da pobre mãe segredava-se maledicências, faziam-se mil conjecturas, etc...,
Entre lamentos e suposições os dias foram passando... A mãe veste-se de luto.
Passaram anos... O povo começa a esquecer o caso. Outras coisas ocupam, agora, a mente popular... Só a pobre mãe é que não se desprende do luto...
Até que um certo burburinho chega à aldeia. Primeiro segredado de orelha em orelha pelas comadres, depois já dito à boca cheia..
Andava coisa ruim pelos fraguedos ao redor da aldeia... e palavra puxa palavra os pastores que por la passavam, foram tagarelando que era verdade, e que voltava a ser verdade, tanto assim, que peguilho que levassem para a merenda era vê-lo ir. Desaparecia como por encanto...
Diacho da rapariga! Querem ver que era ela !?
(continua numa próxima edição)
Hoje numa conversa habitual com uma daquelas pessoas encantadoras deste lugar, onde as pessoas se tornam mais velhas pelo caminhar dos anos arrastados pela vida e pelo pensamento cruel de se sentirem desprezados e desenraizados de suas famílias, este lugar a que chamam lar, mas onde o sentido da verdadeira palavra lar deixa tanto a desejar…
Diria lar de sofrer de pensar nos sonhos perdidos e deitados ao vento e espalhados sem que ninguém os acolha e os ouça apenas para fazerem sentido a uma vida sofrida e onde os anos ajudam a pesar mais o olhar, o sonho que se esmoreceu no olhar vazio do tempo e nas memorias que um dia fizeram a história duma vida.
Hoje uma destas "jovens" duma vida de viver, tirou da sua história de memórias uma história de encantar que passo a descrever com a fidelidade que julgo poder dar-lhe.
Ao subir das escadas ouvi alguém:
- São, menina São está aí?
- Sim diga lá que deseja, minha carinha laroca, quer a paparoca? Já vim cá espreitar mas estava a dormitar ou a "caçar ratos"?
- Eu a dormitar? Estava era a sonhar?
- A sonhar com quê, quer contar? Vá lá fale-me dos seus sonhos de encantar, mas espere que a sua paparoca esta aqui para lhe dar, hoje está boa, flocos com leite e adoçante vamos lá abrir a boca e mastigar.
-Está boa sim menina, hoje gosto não está amarga.
E lá continuou a D. Graciete a comer a sua refeição aconchegante da noite, com o olhar vazio no tempo e pensando Qui ça numa história, talvez a que a seguir iria contar
-Olhe menina a minha filha, quando era pequenita, tinha uns pijamas assim com um bolso e um bonequinho bordado nesse bolso, assim um cãozinho, um ursinho assim coisas sabe? Aquelas que se bordam nas roupas dos miúdos para ficarem mais alegres. A minha filha um dia perguntou:
-Mamã (sabe ela chamava-me assim de mamã), para que serve este bolso do pijama?
- Ah minha filha, esse bolso serve para guardares os sonhos e sabes minha filha (e colocando a mão onde possivelmente estaria o bolso, bem assim juntinho ao coração, e continuou) fecha assim o bolso (e fez o gesto bem ternurento e aconchegante pegando no casaco do pijama dela) para que os teus sonhos não possam fugir.
E sabe menina São, um dia ela chegou ao pé de mim e disse-me a chorar:
-Mamã os sonhos fogem não os consigo guardar.
-Então minha filha deixa-os ir, novos virão para dar lugar a esses e assim terás sempre sonhos novos e bonitos, não chores vais ver que todos os dias terás sonhos de encantar não precisas mais de os guardar.
Olhe menina São ela deixou de chorar e nunca mais guardou os sonhos no bolso do pijama com um boneco bordado, coisas de crianças menina São e coisa de mãe.
Lá ficou ela, a D. Graciete de novo com o olhar perdido no tempo, talvez a pensar que nunca teve um bolso num pijama onde pudesse ter guardado os sonhos dela para um dia serem reais e nunca poder estar num "lar" onde os sonhos não existem, apenas existe um vazio num olhar e um sonho de poder fechar os olhos descansados para sonharem eternamente em serem amados e terem um pouco de carinho e aconchego, uma ternura e um sonho quem sabe guardado no bolso do pijama encantado da vida da qual apenas resta um bolso pequenino da recordação …
O dia estava esplêndido e a corrida iria ser o máximo!
Procurei um cantinho onde pudesse fotografar e foi então que reparei nela.
Aquelas rodas estavam quietas enquanto que, ao lado, outras passavam a grande velocidade. Afinal era uma corrida de carros. Desviei o olhar da estrada e olhei uma vez mais para aquela mota e percebi que era especial.
Tinha uma marca distinta na sua cor quente. Sorri para o seu dono, um homem que não aparentava a idade que tinha e arranjei coragem para perguntar o que significava. Ele retribuiu o sorriso, coçou a barba e escondeu o rosto numa gargalhada. Nunca ninguém lhe perguntara tal coisa. Aquela marca estava ali desde o ano em que comprara a sua paixão: a mota. Uma antiga namorada, furiosa com ele, usara um canivete para deixar a sua marca.
Apercebi-me que talvez tivesse um outro significado, algo mais profundo que ele não queria revelar a uma desconhecida. Fotografei-a. Esta ali para sempre dentro da minha máquina.
Voltei-me novamente para a estrada e para os carros e nunca mais pensei no assunto.
Vivia na aldeia, como o pai e mãe já idosos, certa rapariga sobremaneira namoradeira e amiga de levar a sua avante. A dada altura, travou namoro com um rapaz que não caiu nas boas graças de seus progenitores. Mal estes o souberam choveram-lhe em casa os ralhetes da praxe e a oposição paterna a tal enlace, sem apelo nem agravo.
O diabo a prepara-las!
A moça, bonita e algo levantada ficou na sua, interpretando as admoestações paternas mais como tentativa para ela ficar sempre solteira.
Não era assim, mas não houve quem a desconvencesse...
Casar é que havia de casar, senão fosse com aquele rapaz havia de ser com outro - afirmava convicta e decidida para as amigas...
Por isso, todas as tardinhas, sempre que ia à fonte, fazia-se ataviada de chitas lustrosas, para se fazer conquistar por novos amores, como quem diz para os pais:
"À Igreja hei-de ir e não há-de demorar muito..."
As coisas corriam neste tom quando, um dia, o pai a surpreendeu em fraco idílio com o moço indesejável. Não queiram saber as que teve de sofrer e ouvir. A partir dai, lá em casa as coisas tornaram-se de mal a pior. O caso corre de boca em boca. Fala-se de tantas lágrimas que encheriam uma bacia grande e de uma pobre mãe que adoeceu de flato, assistindo a tantos maus tratos e tantas imprecações do marido contra a filha...
Mas nem a doença da mulher fez aquele pai mudar de ideias, nem a filha arrepiar caminho.
De tanto lhe bater diz-se que o pai chegou ao ponto se sangrar das mãos, apesar de calejadas pela rabiça do arado. Tudo em vão. A filha sempre a dizer: "Bata-me, bata-me, senhor meu pai, que eu casar hei-de casar, nem que seja com o diabo."
Estava-se longe dos novos tempos que acabaram por ensinar-nos que a cura para as teimosias se deve procurar na persuasão e nunca no bofetão.
E tão alto gritou a rapariga que o diabo ouviu!
Diacho da rapariga! Querem ver que ela anda metida com o diabo!?
(continua numa próxima edição)
Era altura dele repousar. O Sol que me iluminara naquele dia estava prestes a partir e levava consigo aquela flor que me marcara pela sua beleza. Estava na terra do meu bairro e via-a quando passava por ali, atarefada. Levou-me ao suspiro e a recordar lugares belos da minha infância. Foi assim, tão rápido aquele instante.