Os pastores começaram a matutar o caso... Uns tantos riam-se dos pastores, chamando-lhes lorpas e outros levam o medo a sério, dirigindo-se, também estes aos buracos, armados de paus de marmeleiro... Mas tantas vezes aconteceu faltar o peguilho aos pastores que pelo sim e pelo não, eles resolveram por-se à espreita, por detrás de uns silvados. E é, então, que, dum buraco, vêem sair um vulto que os deixou boquiabertos e quase sem respiração. Parecia ser a moça, desaparecida há anos, desgrenhada e envelhecida. Era ela que se apossava dos seus farnéis (!?) Não queriam acreditar no que estavam a ver. Esfregavam os olhos, não estivessem a sonhar e iam pensando la para consigo: - É obra de Satanás, à certa. Convencidos de que era coisa maligna, correram a dar a noticia ao paroco da freguesia. Inicialmente, o velho reitor não os quis acreditar. Porém como eles insistam, acabou por acompanhar-los, a alta madrugada, ao Buraco Feio, iluminados pela Estrela Polar. Emboscaram-se e guardaram absoluto silencio. E eis a pobre mulher com as vestes em desalinho e a face escaveirada, caminhando a passos lentos e, aparentemente, alheia de tudo. Chegou a vez de, também, o prior ficar atónito. Reconheceu a desgraçada e, sem delongas, vai-lhe ao encontro, cheio de santo zelo. A mulher treme e tenta evadir-se. O sacerdote traça, rapidamente o sinal da cruz e ela aquieta-se e responde ao chamamento. De pronto, deixa o Buraco e acompanha-os de regresso à aldeia. E logo conta a sua história de estarrecer. Como, um dia, quando o pai a castigava, dissera do seu coração que casaria nem que fosse com o diabo e que este esperou a ocasião favorável e a arrebatou para as profundezas do abismo... Que tivera três filhos que só os vira ao nascer, porque logo lhes foram arrebatados. Como eles eram não quis dizer... Mas que, mesmo assim os amava. Já à vista do povoado pergunta pelos seus pais, desejosa de saber se são vivos... Se lhe irão dar a benção, o seu perdão... Aquietada nos seus escrúpulos pelos bom prior, entra na aldeia, olhada pelos transeuntes como se fora uma morta ressuscitada. Uns benzem-se, outros correm a sete pés, fechando-se em suas casas... A história correu toda a povoação e circulou pelos arredores. E dos tais fraguedos diabólocos que se abrem em fendas e buracos, se afastavam contrabandistas, pastores e quem por ali perto passa-se. O demónio tentador morava ali...
MENSAGENS A RETIRAR DESTE CONTO: 1. Condenação da autoridade paterna despótica e do desinteresse pelos afectos legítimos e honestos dos filhos. 2. Chamamento a contenção verbal sobre tudo quando não deveriadizer-se nem fazer-se, sobe pena de algum castigo.
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